Resposta Rápida

A energia solar na agricultura em Moçambique já está a ser usada em bombas de rega, câmaras frias para conservar hortícolas e pescado, e electrificação de infra-estruturas rurais como bombas de água comunitárias.

O FUNAE instalou 60 sistemas de irrigação solar entre 2006 e 2016, e um projecto da UNIDO/GEF levou bombas solares a cerca de 4.000 agricultores na Zambézia, Sofala e Tete.

O maior obstáculo não é a tecnologia, é o financiamento inicial e o risco de roubo dos painéis, ambos abordados mais à frente neste artigo.

Se a sua machamba depende de gerador a gasóleo para bombear água, ou se já perdeu produção porque não tinha onde conservar hortícolas depois da colheita, sabe bem o quanto o custo de energia pesa no negócio agrícola.

A energia solar resolve exactamente este tipo de problema em zonas rurais moçambicanas, onde apenas cerca de 31% da população tinha acesso à rede eléctrica em 2018, segundo dados citados pelas Nações Unidas em Moçambique.

Este artigo junta as principais aplicações da energia solar na agricultura já testadas em Moçambique (irrigação, frio, electrificação rural e biogás), com exemplos reais de projectos no país, os fornecedores e marcas de equipamento disponíveis, e os caminhos de financiamento que existem hoje.

No final, vai saber que pergunta fazer antes de investir, e onde procurar apoio para começar.

Porque a Energia Solar Faz Sentido na Agricultura Moçambicana

Moçambique tem uma das maiores exposições solares de África, mas grande parte da produção agrícola continua dependente de chuva e de combustíveis fósseis para mecanização e bombagem de água.

Com a extensão da rede eléctrica a ser tecnicamente difícil, dispendiosa e muitas vezes ineficiente em zonas de baixa densidade populacional, segundo a UNIDO e o Governo de Moçambique, a energia solar tornou-se a alternativa mais viável para levar energia a machambas, armazéns e pequenas explorações fora do alcance da rede nacional.

Principais Aplicações da Energia Solar na Machamba

Bombas de Rega Solares

A aplicação mais desenvolvida da energia solar na agricultura moçambicana é a irrigação. O FUNAE instalou 60 sistemas de irrigação solar entre 2006 e 2016, no âmbito do esforço para mecanizar a rega, segundo a energypedia.

Mais recentemente, um projecto da UNIDO em parceria com o Fundo Global para o Ambiente (GEF) distribuiu bombas de água solares a pequenos agricultores da Zambézia, Sofala e Tete, chegando a 80 sistemas instalados e cerca de 4.000 agricultores beneficiados até 2020.

No mercado moçambicano estão disponíveis marcas como Taifu, Futurepump SF2, Grundfos 2.5-2, Lorentz PS2-100 e Solartech SPM600H, com capacidade para irrigar entre 2.000 e 4.000 m² por sistema, dependendo da localização, estação e tipo de solo, segundo dados de mercado compilados pela energypedia.

Um caso de maior escala é o da empresa Super Kwick, que através da linha de crédito BCI-SUPER instalou um sistema solar de 2,5 kW para irrigar 30 hectares de macadâmia, caju, arroz e feijão.

Atenção a um problema real e pouco falado: o risco de roubo dos painéis solares é apontado como um dos principais entraves à adopção de bombas solares em Moçambique, sobretudo em bombas submersíveis que usam vários painéis fixos num suporte.

Bombas de sucção, cujos painéis podem ser guardados em casa fora do horário de rega, reduzem este risco, segundo a análise de barreiras da energypedia.

Câmaras Frias Solares para Conservação Pós-Colheita

Câmaras Frias Solares para Conservação Pós-Colheita

A refrigeração continua a ser um dos elos em falta nas cadeias de valor agrícolas em África, segundo Emmanuel Aziebor, director regional da CLASP, citado pela Agroportal.

Países como Quénia, Nigéria, Etiópia, Ruanda e África do Sul já têm câmaras frigoríficas solares instaladas em mercados agrícolas, onde produtores e comerciantes alugam espaço de armazenamento diariamente.

Em Moçambique, um exemplo concreto é o sistema de câmaras frigoríficas solares apoiado pela UNIDO para a associação MAKOMANE-ADM, em Inhambane, criado para preservar pescado que antes se perdia por falta de refrigeração.

Electrificação de Infra-Estruturas Rurais

Electrificação de Infra-Estruturas Rurais

Além da machamba propriamente dita, a energia solar também está a electrificar infra-estruturas de apoio à produção rural. 

Com o apoio da UNIDO desde 2021, a Associação Moçambicana de Fornecedores Privados de Água (AFORAMO) instalou sistemas solares com uma capacidade combinada de 63 kW para nove fornecedores privados de água na província de Maputo, garantindo bombagem de água sem depender da rede eléctrica ou de geradores a gasóleo.

Biogás: Uma Renovável Complementar

Embora não seja energia solar, o biogás produzido a partir de resíduos agrícolas está a surgir em Moçambique como tecnologia complementar de electrificação rural.

Em Inharrime, província de Inhambane, a Cooperativa de Processamento de Mandioca Josina Machel produz cerca de 96 m³ de biogás por dia a partir de resíduos de mandioca, usado para cozinhar, refrigerar e iluminar, com apoio da UNIDO e da CHARIS-Associação de Solidariedade Social.

Aplicação Uso principal Exemplo em Moçambique Onde financiar
Bombas de rega solares Irrigação sem depender da rede eléctrica ou de combustível FUNAE (60 sistemas, 2006-2016); UNIDO/GEF em Zambézia, Sofala e Tete (~4.000 agricultores) Linha de crédito FUNAE/BCI; fundos de apoio ao agronegócio
Câmaras frias solares Conservação pós-colheita de hortícolas, fruta e pescado Sistema de frio para peixe apoiado pela UNIDO, MAKOMANE-ADM, Inhambane Doadores e ONG (UNIDO, GEF); parcerias com associações locais
Electrificação de infra-estruturas rurais Bombas de água comunitárias, oficinas e pequenos negócios rurais AFORAMO, 63 kW para 9 fornecedores privados de água, Maputo UNIDO; parcerias público-privadas
Biogás (renovável complementar) Cozinha, refrigeração e iluminação a partir de resíduos agrícolas Cooperativa Josina Machel, Inharrime, biogás de resíduos de mandioca UNIDO; CHARIS-Associação de Solidariedade Social

Estas quatro aplicações não esgotam o potencial da energia solar na machamba, secagem solar de produtos e aquecimento de estufas são também usados noutros países, mas ainda não encontrámos projectos documentados especificamente em Moçambique para estas duas últimas aplicações, por isso não incluímos números locais para não fabricar dados que não existem.

Quanto Custa e Onde Financiar

O maior obstáculo à adopção de energia solar na agricultura não costuma ser a tecnologia, é o investimento inicial. A principal linha de crédito específica para o sector, gerida pelo FUNAE e implementada pelo banco BCI, com garantia de 1 milhão de USD fornecida pela UNIDO, financia até 50.000 USD, a pagar em 1 a 3 anos, com taxa de juro de 7,5% e entrada mínima de 25% do investimento.

O alvo declarado são empresas, ONG, cooperativas e associações, não o pequeno produtor individual, que precisa de se organizar colectivamente para aceder a este tipo de financiamento, segundo a energypedia.

Se a sua associação ou cooperativa ainda não conhece as outras vias de financiamento agrícola disponíveis no país, vale a pena consultar também o nosso guia sobre fundos de apoio ao agronegócio em Moçambique, que junta outras fontes de crédito e apoio para além da linha específica de energia solar.

Vantagens e Limitações Reais

•     A favor: elimina o custo contínuo de combustível e reduz a dependência de geradores a gasóleo

•     A favor: funciona em zonas rurais sem acesso à rede eléctrica, onde a extensão da rede é cara e lenta

•     A favor: já existem linhas de crédito, projectos de doadores (UNIDO, GEF) e fornecedores activos no mercado moçambicano

•     Contra: o investimento inicial é elevado, e o financiamento acessível está mais voltado a associações e empresas do que a produtores individuais

•     Contra: risco real de roubo de painéis solares, sobretudo em sistemas de bombagem submersível instalados em campo aberto

•     Contra: equipamento de rega de precisão (como sistemas de gotejamento) que acompanha bem as bombas solares ainda tem custo proibitivo para a maioria dos pequenos produtores

Como Começar: Passo a Passo

1.  Identifique a necessidade mais urgente: rega, conservação pós-colheita ou electrificação de um armazém ou oficina;

2.  Se for para bombagem de água, meça ou estime a profundidade do lençol freático, isso determina o tipo de bomba solar adequado;

3.  Contacte a delegação local do FUNAE ou uma ONG activa na sua província (a UNIDO e a GIZ têm projectos em curso em várias zonas do país);

4.  Verifique se a sua associação ou cooperativa reúne os requisitos da linha de crédito FUNAE/BCI, incluindo conta bancária e plano de negócio;

5.  Peça orçamento a mais do que um fornecedor de equipamento solar antes de decidir;

6.  Planeie desde já a segurança dos painéis, vedação, vigilância ou escolha de bombas com painéis amovíveis, para reduzir o risco de roubo.

Perguntas Frequentes

A energia solar compensa para um pequeno produtor com poucos hectares?

Pode compensar, mas o acesso ao financiamento mais vantajoso (linha FUNAE/BCI) está desenhado sobretudo para associações, cooperativas e empresas, não para produtores individuais. Juntar-se a uma associação costuma ser o caminho mais viável para aceder a crédito com juro reduzido.

Qual é o maior risco ao instalar uma bomba solar na machamba?

O roubo dos painéis é o risco mais citado por produtores e distribuidores em Moçambique. Bombas de sucção, com painéis que podem ser recolhidos depois da rega, reduzem esse risco em comparação com sistemas submersíveis fixos.

Existe apoio do governo para instalar energia solar na machamba?

Sim, o FUNAE tem um histórico de instalação directa de sistemas de irrigação solar e gere, em parceria com o banco BCI, uma linha de crédito específica para este tipo de investimento, com garantia da UNIDO.

A energia solar serve só para rega, ou também para conservar produtos depois da colheita?

Serve para as duas coisas. Além das bombas de rega, já existem câmaras frigoríficas solares a funcionar em Moçambique, como o sistema de conservação de pescado apoiado pela UNIDO em Inhambane, e o modelo está a crescer noutros países africanos para hortícolas e fruta.

Conclusão

A energia solar deixou de ser uma promessa distante para a agricultura moçambicana: já rega machambas na Zambézia, conserva pescado em Inhambane e alimenta fornecedores de água em Maputo.

O que falta, na maioria dos casos, é organização, juntar-se em associação, preparar a documentação e procurar as linhas de crédito certas.

A sua machamba já tem algum destes sistemas instalados, ou está a considerar o primeiro passo? Partilhe a sua experiência nos comentários, pode ajudar outro produtor da sua região a decidir.