Resposta rápida: a exportação de produtos agrícolas de Moçambique é liderada pela castanha de caju bruta, que rendeu 82,9 milhões de dólares no primeiro semestre de 2026, mais de três quartos do total agrícola exportado (108,5 milhões de dólares). Seguem-se a macadâmia, o gergelim, a soja e a fibra de algodão. Para exportar, quem lida com produtos de origem vegetal precisa de um certificado fitossanitário, hoje emitido por via electrónica (e-Phyto), além de cumprir as regras de cada produto.
Quem produz caju, gergelim ou algodão sabe que há compradores lá fora, mas poucos sabem ao certo que produtos agrícolas exportados rendem mais, para que países vão e que papéis são exigidos. Esta falta de informação clara custa dinheiro a produtores, cooperativas e comerciantes.
Neste guia reunimos os números mais recentes de 2026, os mercados de destino e o passo a passo para exportar, com base em dados do Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas (MAAP), do Banco de Moçambique e de organizações internacionais.
Vamos ver primeiro os produtos e os valores, depois os mercados, o processo de exportação, um exemplo ilustrativo e os obstáculos que mais travam o sector. No fim, responde-se às dúvidas mais frequentes.
Quais são os principais produtos agrícolas exportados por Moçambique?
No primeiro semestre de 2026, segundo dados de execução do MAAP divulgados pela Lusa, Moçambique exportou produtos agrícolas no valor de 108,5 milhões de dólares, um aumento de 5% face aos 103,2 milhões do mesmo período de 2025. A tabela mostra os produtos com valores reportados.
Fonte: MAAP, dados de execução do 1.º semestre de 2026, divulgados pela Lusa e publicados no Jornal Económico (25 de Setembro de 2026). A soma dos produtos listados excede o total divulgado, o que sugere critérios de contabilização diferentes; confirme no relatório original antes de citar percentagens.
Castanha de caju: o líder, mas em queda este ano
A exportação de castanha de caju continua a ser a maior fonte de receita agrícola externa. Em volume, o país passou de 74.664 toneladas no primeiro semestre de 2025 para 73.391 toneladas em 2026, ou seja, a queda do valor foi bem maior do que a do volume. Os dados do Banco de Moçambique mostram que as vendas externas saltaram de 30 milhões de dólares em 2021 para um recorde de 98,2 milhões em 2024.
Para a campanha 2025/2026, o Comité de Amêndoas fixou preços de referência para exportação de 1.250 dólares por tonelada na qualidade de 46 libras (mais 19%) e 1.440 dólares por tonelada na de 53 libras (mais 13,5%).
O Governo aprovou ainda, a 4 de Agosto de 2026, um novo regulamento da Lei do Caju, que cobre desde o fomento até à exportação. Um estudo do Banco Mundial sobre a cadeia de valor do caju lembra que uma grande parte das exportações é de castanha em bruto e que o rendimento médio é de apenas 3 kg por árvore, o que mostra onde está o maior espaço para melhorar.
Para saber todo o processo produtivo, veja como plantar cajueiro em Moçambique, e tenha um pomar saudável.
Macadâmia: a segunda aposta
A macadâmia rendeu 19 milhões de dólares no primeiro semestre de 2026, com Vietname e China como principais compradores. Segundo dados provisórios do ministério, as exportações subiram de 30,2 milhões de dólares em 2024 para 39,9 milhões em 2025, o que a torna uma das culturas de valor mais alto a crescer de forma consistente.
Gergelim: qualidade que abre mercados

A exportação de gergelim rendeu 16,8 milhões de dólares no semestre, sobretudo para a China. Há uma boa notícia recente: em seis meses, o país exportou 6.400 toneladas para a União Europeia (1.400 toneladas) e o Japão (5.000 toneladas) sem qualquer rejeição, algo que não acontecia há cinco anos, segundo o MAAP.
Nos três anos anteriores tinham sido registadas 14 rejeições de lotes. O ministério associa a melhoria à certificação digital obrigatória antes do embarque, feita através do Instituto do Algodão e Oleaginosas de Moçambique (IAOM), e ao acompanhamento pela Janela Única Electrónica.
No total, foram exportadas 48.915 toneladas de gergelim no período, sem devoluções, conforme a Forbes África Lusófona. Para quem queira aprofundar sobre esta oleaginosa, consulte o nosso guia sobre como produzir gergelim em Moçambique.
Algodão, soja e outros produtos
A fibra de algodão quase duplicou em valor, de 2,5 para 4,2 milhões de dólares. Segundo o Governo, o preço do algodão-caroço sobe 22,7% na época 2025/2026, para 27 meticais por quilograma, numa tentativa de recuperar empresários que abandonaram o sector; mesmo assim, Moçambique pesa menos de 0,5% da produção mundial.
Quem quiser aprofundar a cultura pode consultar e ler a produção de algodão em Moçambique, e quem pensa em oleaginosas encontra o guia de como produzir soja em Moçambique. Outros produtos, como açúcar, banana, tabaco e hortícolas, também aparecem nas estatísticas do Banco de Moçambique, mas os valores de 2026 por produto não foram confirmados para este artigo.
Quanto Moçambique exporta e porque os números mudam consoante a fonte?
Quem pesquisa a exportação de produtos agrícolas de Moçambique encontra valores diferentes para o mesmo ano. Isto não é erro de digitação: o Banco de Moçambique (balança de pagamentos) e o MAAP (execução sectorial) divulgam séries distintas.
No caju, por exemplo, o Banco de Moçambique indica 98,2 milhões de dólares em 2024 e 66 milhões em 2025, enquanto o MAAP aponta 44,1 milhões em 2024 e 121,6 milhões em 2025 (dados provisórios). As razões podem ser critérios de registo diferentes, mas isso deve ser confirmado junto das instituições.
Fontes: Banco de Moçambique (via Lusa/Agroportal e RTP) e MAAP (via Executive Digest e Jornal Económico). Para comparar anos, use sempre a mesma fonte.
A regra prática é simples: nunca misture fontes na mesma comparação. O relatório trimestral do Banco de Moçambique detalha as exportações da economia tradicional, incluindo os produtos agrícolas, e é a referência para séries longas.
Em um contexto mais amplo, o Banco Mundial estimou que a agricultura representou 24,3% do PIB em 2023, segundo a TradeMark Africa. Para entender melhor o contexto interno, veja também o artigo sobre o mercado agrícola em Moçambique.
Para que países Moçambique exporta produtos agrícolas?
A Ásia domina a procura por produtos de maior valor: o Vietname e a Índia compram caju, o Vietname e a China compram macadâmia, a China lidera no gergelim e o Bangladesh aparece no algodão. A África do Sul surge como terceiro destino do caju.
A União Europeia e o Japão compram menos volume de gergelim, mas são mercados mais exigentes, onde uma rejeição de lote pode prejudicar a imagem do país. Por isso, cumprir as normas fitossanitárias não é burocracia: é o que mantém os mercados abertos.
Como exportar produtos agrícolas em Moçambique, passo a passo?

O processo varia conforme o produto, mas existe um fio condutor comum. A tabela resume as etapas e as entidades envolvidas; logo a seguir, cada etapa é explicada com mais detalhe.
Fonte: sistematização da redacção do Mundha Agro com base em informação do MAAP, da TradeMark Africa e da IPPC. Confirme sempre os requisitos actuais junto das entidades.
1. Escolha o produto e o mercado
Antes de pensar em papéis, defina o comprador e o país. A União Europeia e o Japão, por exemplo, rejeitam lotes que não cumpram os limites sanitários, enquanto outros mercados têm regras diferentes. Pedir ao comprador a lista de exigências por escrito evita surpresas.
2. Regularize a actividade
É preciso ter a empresa ou associação regularizada e estar habilitado como operador de comércio externo junto da Autoridade Tributária e das Alfândegas.
Atenção: os documentos exigidos mudam com o tempo, por isso confirme a lista actual na Janela Única Electrónica antes de investir em carga.
3. Garanta qualidade e rastreabilidade
Produtos vegetais podem ter impurezas e pragas depois da colheita. Por isso, os certificados dependem de análises laboratoriais e, quando necessário, de fumigação feita por agentes autorizados.
Separe o produto por lote, guarde registos de origem (produtor, distrito, data de colheita) e conserve o produto em local seco. É esta rastreabilidade que permitiu ao gergelim chegar à Europa e ao Japão sem rejeições. Escolher boa semente também ajuda: veja como escolher sementes de qualidade.
4. Peça o certificado fitossanitário no sistema e-Phyto
Segundo a TradeMark Africa, o e-Phyto foi lançado em Maio de 2025 para substituir o processo em papel. O sistema cobre a submissão do pedido, o pagamento online, a análise dos documentos, o agendamento da inspecção, a aprovação e a emissão do certificado digital.
Antes, os exportadores de banana, manga, lichia, castanha de caju e sementes tinham de entregar pedidos em papel na sede da Direcção Nacional de Sanidade Agrária e Biossegurança (DNSAB) ou numa das suas 41 delegações.
O certificado electrónico segue o modelo da solução ePhyto da IPPC, que permite às autoridades de países diferentes trocar e verificar certificados, e a TradeMark Africa explica o lançamento do sistema em Moçambique.
5. Cumpra as regras específicas do produto
No gergelim e noutras oleaginosas, a certificação digital pelo IAOM é obrigatória antes do embarque. No caju, aplicam-se o novo regulamento de 2026 e os preços de referência fixados pelo Comité de Amêndoas.
O estudo do Banco Mundial de 2019 refere ainda um imposto de exportação sobre a castanha em bruto, na altura de 18% do preço FOB, para estimular o processamento local. Esse valor deve ser verificado, porque pode ter mudado desde então.
6. Organize o desembaraço e a logística
Com o certificado e as regras cumpridas, os documentos seguem pela Janela Única Electrónica até ao embarque. A escolha do corredor (Nacala, Beira ou Maputo) e o custo do transporte interno pesam muito na margem; leia mais sobre a logística no agronegócio em Moçambique. Quem precisa de capital para comprar produção ou equipamento pode consultar os fundos de apoio ao agronegócio.
Como funciona na prática? Um exemplo ilustrativo no gergelim
Exemplo ilustrativo, não é um caso real. Imagine uma associação de pequenos produtores de gergelim em Nampula, província que o Governo destaca entre as de maior disponibilidade de produção. A associação reúne a colheita de dezenas de famílias e forma um lote de 25 toneladas.
Antes de vender, regista a origem de cada saco, leva amostras para análise e pede o certificado fitossanitário no e-Phyto. Como o produto é uma oleaginosa, obtém também a certificação digital do IAOM antes do embarque.
O comprador só aceita o lote porque o dossier está completo e rastreável. Se um destes passos falhar, o risco é a rejeição, que atinge toda a cadeia e pode prejudicar o acesso futuro ao mercado. A lição prática: quem organiza lotes, regista a origem e cumpre as certificações tem mais probabilidade de manter o comprador.
Quais são os maiores obstáculos à exportação agrícola em Moçambique?
• Rejeições por qualidade: nos três anos anteriores ao último semestre, foram registadas 14 rejeições de lotes de gergelim na União Europeia e no Japão.
• Exportação em bruto: o caju sai maioritariamente como castanha crua. O programa do Governo quer elevar a capacidade de processamento de 40 mil para mais de 482 mil toneladas.
• Produtividade baixa: o estudo do Banco Mundial indica cerca de 3 kg de castanha por cajueiro, um dos rendimentos mais baixos do mundo.
• Clima: a produção de açúcar na Açucareira de Mafambisse, em Sofala, tem caído por causa de intempéries e alterações climáticas, segundo a administração.
• Dados dispersos: como vimos, as fontes divulgam valores diferentes, o que dificulta o planeamento.
• Custos e financiamento: transporte, armazenamento e capital de giro continuam a pesar na margem do exportador.
O que esperar da exportação agrícola nos próximos anos?
O Programa de Desenvolvimento da Cadeia de Valor do Caju 2025-2034, avaliado em 374 milhões de dólares, pretende elevar a produção anual de 158 mil para 689 mil toneladas e aumentar os produtores assistidos de cerca de 230 mil para mais de 600 mil.
O Presidente da República anunciou, no lançamento da campanha agrícola 2026, uma produção global estimada em 21,3 milhões de toneladas e a comercialização de cerca de 14,6 milhões, segundo a AIM.
Estes números dizem respeito à comercialização total, não apenas à exportação, mas mostram a direcção: mais produção, mais processamento local e mais exigência de qualidade.
Perguntas frequentes sobre exportação agrícola em Moçambique
Qual é o principal produto agrícola exportado por Moçambique?
A castanha de caju bruta. No primeiro semestre de 2026 rendeu 82,9 milhões de dólares, mais de três quartos das receitas agrícolas exportadas, segundo o MAAP.
Para onde Moçambique exporta castanha de caju?
Os principais destinos em 2026 são o Vietname e a Índia, seguidos da África do Sul.
Preciso de certificado fitossanitário para exportar?
Para produtos de origem vegetal, sim. O certificado fitossanitário é pedido hoje pelo sistema e-Phyto, que substituiu o processo em papel. Confirme junto do MAAP o procedimento para o seu produto.
Moçambique exporta gergelim para a Europa?
Sim. Em seis meses foram exportadas 1.400 toneladas para a União Europeia e 5.000 toneladas para o Japão, sem rejeições, de acordo com o ministério.
Conclusão
A exportação de produtos agrícolas de Moçambique continua a ter no caju um dos seus principais produtos de referência, enquanto culturas como a macadâmia, o gergelim e o algodão demonstram o potencial de diversificação da produção nacional e de expansão para novos mercados.
No entanto, para transformar esse potencial em oportunidades comerciais sustentáveis, não basta produzir em quantidade: é fundamental garantir a qualidade dos produtos, a rastreabilidade, o cumprimento das exigências fitossanitárias e a correcta preparação da documentação de exportação.
O investimento no processamento, na organização dos produtores e no acesso à informação sobre os mercados internacionais pode contribuir para aumentar a competitividade dos produtos moçambicanos.
Que produto agrícola da sua província acredita ter potencial para conquistar os mercados internacionais? Partilhe a sua opinião nos comentários e participe nesta conversa sobre o futuro das exportações agrícolas do país.
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