Na primeira chuva forte, muitos agricultores vão semear. Em anos normais, é a decisão certa. Neste ano, pode ser a mais cara da campanha.

A razão está no mar. Em Maio, o Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) alertou para uma alta probabilidade de um El Niño de forte intensidade durante a época chuvosa 2026/2027, com risco de chuvas irregulares e abaixo do normal no Sul e no Centro, e de cheias no Norte. Em Setembro, a previsão sazonal para Outubro a Março manteve o alerta.

O que fazer com isto na machamba? Reunimos sete decisões práticas, para tomar antes de gastar dinheiro em semente e adubo.

O que Dizem as Previsões

Segundo a previsão sazonal do INAM, o Centro e o Sul têm maior probabilidade de chuva abaixo do normal e de temperaturas máximas acima do normal, sobretudo em Maputo, Gaza, Inhambane, Manica e Sofala. O Norte (Cabo Delgado, Niassa e Nampula) tem as condições mais favoráveis, com chuvas normais ou acima do normal.

O INAM refere ainda que o El Niño pode manter-se durante a época chuvosa, com maior peso entre Outubro e Dezembro, e atingir intensidade comparável ou superior à de episódios fortes anteriores. Um relato que cita a NOAA, de 13 de Agosto, apontava para um evento muito forte; trate este número como indicativo e confirme-o na fonte original.

Alerta: Uma previsão sazonal não diz o que vai acontecer na sua machamba, dia a dia. O próprio INAM lembra que deve ser complementada pela previsão de curto prazo. Use-a para planear, não para adivinhar.

Porque Este El Niño Preocupa

O INAM recorda que o El Niño de 2023 e do primeiro trimestre de 2024 provocou secas prolongadas em partes do Sul e do Centro. Quem viveu essa campanha sabe o que significa ver o milho secar na floração, sem tempo para replantar.

Desta vez, o aviso chega com meses de antecedência: o comunicado do INAM é de Maio e o Governo pediu, a 19 de Maio, o reforço da preparação para a seca no Sul e no Centro. Há tempo para decidir com calma, mas esse tempo está a acabar.

Para a agricultura familiar, que depende quase por inteiro da chuva, a diferença entre uma boa e uma má decisão pode ser a diferença entre ter reserva ou comprar milho no mercado em plena escassez.

Decisão 1: Saber em que cenário está

Sul e Centro: o risco principal é a seca e o calor. Norte: o risco principal é o excesso de água, com cheias e encharcamento. Antes de qualquer compra, escreva em que cenário se encontra e planeie só para ele. Quem está numa baixa do Norte deve pensar em drenagem; quem está em Gaza deve pensar em água.

Para o contexto geral do fenómeno, leia o guia El Niño e agricultura em Moçambique.

Decisão 2: Não semear com a primeira chuva

É a armadilha mais comum. Uma chuva isolada molha a camada de cima do solo, a semente germina e, duas semanas depois, a falta de chuva mata a plântula. Em anos de El Niño, estas falsas partidas são mais prováveis.

Espere que o solo fique húmido em profundidade e que a chuva se repita. Um teste simples: cave com a enxada e confirme que a humidade vai além da superfície. Se só molhou a camada de cima, aguarde.

Decisão 3: Semear em fases

Em vez de plantar toda a área no mesmo dia, divida-a em duas ou três parcelas, com algumas semanas de intervalo. Se a primeira falhar, as outras ainda podem salvar a campanha. Se tudo correr bem, escalona também a colheita e o trabalho.

É uma forma barata de repartir o risco, sem comprar nada.

Decisão 4: Escolher semente adaptada

Prefira variedades de ciclo curto e tolerantes à seca, quando existirem para a sua cultura e região. Pergunte ao extensionista do distrito ou ao IIAM o que está recomendado para a sua zona, e leia o guia de sementes de qualidade em Moçambique.

Cultivos mais resistentes à falta de água, como a mapira, o mexoeira e a mandioca, merecem uma parte da área em zonas de risco. Não mude de cultura por completo sem teste: experimente numa parcela.

Decisão 5: Cultivar menos, mas melhor

Num ano de risco, uma área grande mal cuidada rende menos do que uma área menor com adubo, sacha a tempo e água suficiente. Concentre o trabalho e o insumo onde o solo é melhor e retém mais humidade.

Conheça o seu solo antes de investir em adubo: veja como fazer análise do solo e as contas do custo de produção.

Decisão 6: Guardar a água do solo

A cobertura morta, feita com palha ou resíduos da colheita, reduz a evaporação e mantém o solo fresco. A agricultura de conservação vai no mesmo sentido: menos mobilização, mais cobertura.

Se tem poço ou furo, meça quanta água dá no fim da época seca antes de alargar a área: leia o que pode correr mal. Para hortícolas, veja os sistemas de irrigação de baixo custo e como reduzir o consumo de água.

Dica: Ponha a água de salvação nas fases críticas: germinação, floração e enchimento do grão. É aí que a falta de água faz mais estragos.

Decisão 7: Proteger o rendimento da família

Diversifique: mais de uma cultura, e parte da produção para venda e parte para consumo. Guarde reserva de alimentos e sementes. Se pensa pedir crédito, faça contas com um cenário de colheita fraca; veja as opções em crédito bancário e microcrédito e o artigo sobre seguro agrícola.

No Norte, a prioridade é outra: escolha terrenos mais altos, abra valas de drenagem e prepare-se para recuperar a machamba depois de uma cheia, com o guia de como recuperar uma machamba depois de uma cheia.

Cinco Erros que Custam Caro

•       Semear toda a área de uma só vez com a primeira chuva.

•       Comprar adubo e semente a crédito sem prever uma colheita fraca.

•       Alargar a área sem confirmar a água disponível.

•   Ignorar o Norte: a previsão de chuva acima do normal também traz prejuízos, por encharcamento e cheias.

•     Esperar pelo apoio de fora: a ajuda chega a poucos, e tarde; a preparação começa na machamba.

O que Fazer Esta Semana

Não precisa de fazer tudo ao mesmo tempo. Esta semana, faça três coisas: anote em que cenário (seca ou cheia) está a sua zona, fale com o extensionista sobre semente e datas de sementeira, e meça a água de que dispõe.

Fale também com os vizinhos e com a associação de agricultores. Quem partilha informação sobre chuva, semente e preços decide mais depressa e com menos erro. Combine com o grupo quem vai testar uma variedade nova, quem vai guardar sementes e como dividir os custos de uma bomba ou de um serviço de lavoura.

Por fim, acompanhe a previsão do INAM de duas em duas semanas. Se a chuva de Novembro vier regular, pode alargar a sementeira com segurança; se falhar, estará preparado.

O El Niño não decide sozinho a campanha. Quem o vê chegar e planeia, perde menos.